Hoje foi um daqueles dias que decidi sair totalmente da
rotina, precisava fazer algo que nunca tinha feito, algo novo que me tirasse
totalmente desse mundo que tenho hora certa pra fazer absolutamente tudo, sair
da rotina, ver lugares novos na minha cidade, me perder nesses lugares e sair
perguntando um desconhecido qualquer como faço pra chegar em casa.
Me libertei de tudo que fazia no meu dia a dia e sai sem
saber pra onde ir e o que fazer. Apenas coloquei uma calça jeans, uma blusinha
branca, protetor solar e meus inseparáveis chinelos de todo dia. Peguei minhas
chaves, coloquei algum dinheiro no bolso, nem contei pra saber quanto tinha, se
não tivesse suficiente pra voltar, fazia algo que não faço a muito tempo,
voltava pra casa a pé.
Sai caminhando com o pensamento, vou pegar o primeiro ônibus
que passar e vai ser esse que vai me levar para o diferente. Andei alguns
minutos com o pensamento longe, desviei de uma bicicleta que vinha na minha
direção, escutei cantadas baratas de homens na rua, sorri para eles e disse,
tenham um bom dia às mulheres de vocês as amam. Vi um quase acidente acontecer
e ufa foi só um susto, prossegui na minha caminhada imaginando em que roubada
eu ia me meter ou se eu simplesmente não ia me meter em roubada nenhuma.
Após alguns minutos de caminhada vi um ônibus vindo e fiz
sinal, entrei, tirei o dinheiro do bolso e paguei uma passagem inteira, pois
fiz questão de esquecer minha carteira de estudante em casa, pois não queria
ser estudante nesse dia, queria ser uma pessoa qualquer que paga por sua passagem
inteira. Engatei na roleta velha do ônibus e o cobrador gentilmente me ajudou,
cobrador esse que tinha um senso de humor único, me fez rir por alguns minutos
até alguém descer e deixar um lugar vago pra eu sentar naquele ônibus lotado.
Me acomodei em uma cadeira na janela, e de lá acompanhei
o sobe e desce das pessoas apresadas para chegar em seus destinos, vi idosos
entrarem e jovens cederem o lugar para eles sentarem, vi pela primeira vez o
elevador para cadeirantes funcionando, é bonito ver que deficientes podem ter
uma vida normal, é só fazer acontecer.
Depois de passar por tantos lugares, parar em tantas
paradas, frear, acelerar, escutar a roleta girar, a porta abrir e a porta
fechar, finalmente cheguei no meu destino, onde eu queria, no desconhecido. Puxei
a corda, agradeci ao motorista e parei no meio da calçada, olhei para um lado,
olhei para o outro e vi pessoas desconhecidas, lojas desconhecidas, a rua era
desconhecida tudo absolutamente tudo era desconhecido. Eu estava perdida na
minha própria cidade e eu não estava desespera para achar o caminho de volta,
estava simplesmente feliz por estar perdida.
Sai andando pela rua e observando o lugar, nossa como era
diferente da minha realidade. A única coisa que sabia é eu estava na periferia
da cidade, onde tudo é considerado ruim, lugar onde trabalhadores são
considerados bandidos e onde os filhos desses trabalhadores são considerados
mine pivetes que herdarão a profissão dos pais. Ai como eu me sinto enjoada
quando vejo gente falando assim, preconceito é algo que não me desce, é tipo
iogurte, não vai de jeito nenhum.
Periferia, eu estava na periferia da minha cidade e eu
estava feliz, muito feliz por isso. Fui fazer um tour pelas redondezas e
conhecer mais de perto tudo aquilo. Vi gente escutando musica no ultimo volume
na sua caixinha de som, vizinhos conversando, gente sentada na calçada,
crianças brincando na rua, um homem bêbado no bar dormindo, uma senhora
varrendo a calçada da casa, um casal se pegando na esquina da rua. vi cenas de
pessoas sendo pessoas, vi cenas de gente feliz, vi, passei por elas, sorri, disse
boa tarde e voltei pro ponto de ônibus, fiz sinal e voltei pra casa, pra minha
realidade, pro meu dia a dia.